Joelho

Osteonecrose dos côndilos femorais: o que é e como tratar

Conheça as causas e sintomas de osteonecrose dos côndilos femorais e os tratamentos disponíveis.

Dor que começa de repente no joelho, principalmente “por dentro”, e que piora ao apoiar o peso pode ter várias causas.

Uma delas é a osteonecrose dos côndilos femorais, uma lesão do osso logo abaixo da cartilagem (osso subcondral), que pode evoluir com colapso da superfície articular se não for reconhecida a tempo.

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação com um ortopedista especialista em joelho.

O que é osteonecrose dos côndilos femorais

A osteonecrose dos côndilos femorais é uma condição em que o osso subcondral do joelho sofre lesão por falha do suprimento sanguíneo ou por microfraturas por “insuficiência” (quando o osso não aguenta a carga habitual).

Quando diagnosticada cedo, muitas vezes melhora com descarga parcial de peso, controle da dor e reabilitação guiada.

Lesões maiores ou com colapso podem exigir procedimentos de preservação articular ou, em casos avançados, artroplastia.

O que são os côndilos femorais e por que eles podem “sofrer” no joelho

Os côndilos femorais são as duas “pontas” arredondadas do fêmur que formam a articulação do joelho com a tíbia.

A área mais atingida costuma ser o côndilo femoral medial (parte interna), por receber mais carga em boa parte das pessoas.

Quando o osso subcondral perde resistência ou circulação, surgem dor, edema ósseo e, em alguns casos, uma fratura subcondral.

Se a região enfraquecer demais, pode ocorrer colapso e desgaste acelerado da cartilagem, favorecendo artrose.

Tipos, causas e fatores de risco

A expressão “osteonecrose do joelho” é usada para diferentes situações.

Em parte dos casos, o que se vê na prática se aproxima mais de uma fratura subcondral por insuficiência (SIFK), que pode ser chamada também de osteonecrose espontânea do joelho (SONK) em textos mais antigos.

Principais tipos

  • Espontânea (SONK/SIFK): aparece sem trauma importante, geralmente com dor súbita e localizada. Pode estar associada a alterações do menisco, especialmente na raiz posterior do menisco medial, e a perda de suporte do osso subcondral.
  • Secundária: relacionada a fatores sistêmicos que afetam a vascularização e a qualidade do osso.
  • Pós-artroscopia: mais rara, mas descrita após procedimentos no joelho, com dor nova e piora funcional.

Fatores de risco mais comuns

  • Uso prolongado de corticoides (sobretudo em doses altas) e algumas doenças reumatológicas.
  • Distúrbios hematológicos e condições que alteram coagulação e circulação.
  • Tabagismo e consumo excessivo de álcool (associados a piora da saúde óssea e vascular).
  • Osteoporose e baixa qualidade óssea.
  • Sobrecarga mecânica (alterações do eixo do membro, sobrepeso, retorno precoce a impacto).

Nem sempre é possível identificar um único “culpado”. Muitas vezes, é uma combinação de fatores mecânicos e biológicos.

Sintomas: como a dor costuma aparecer

O padrão clássico é de dor de início relativamente abrupto, muitas vezes sem uma queda ou torção clara. Alguns sinais frequentes:

  • Dor localizada na parte interna do joelho, que piora ao caminhar e ao subir ou descer escadas.
  • Inchaço (derrame articular) e sensação de pressão.
  • Sensibilidade ao toque em um ponto específico.
  • Claudicação (mancar) para poupar a carga.

Se a dor for forte, persistir por dias, ou vier acompanhada de inchaço recorrente e limitação funcional, vale investigar com prioridade.

Como confirmar o diagnóstico

A confirmação costuma combinar história clínica, exame físico e exames de imagem. O objetivo é identificar a lesão, estimar tamanho e profundidade, e verificar se existe colapso.

Exame físico e radiografia

A radiografia é um bom ponto de partida, mas pode ser normal no início. Em fases mais avançadas, pode mostrar alteração do contorno subcondral, achatamento (colapso) e sinais de degeneração.

Ressonância magnética

A ressonância magnética é o exame mais sensível nas fases iniciais. Ela identifica edema ósseo, linha de fratura subcondral, delimitação da área comprometida e lesões associadas (como menisco).

Tomografia computadorizada

A tomografia pode ser útil para detalhar colapso e orientar planejamento cirúrgico em casos selecionados.

Estágios e por que o tamanho da lesão importa

O risco de piora costuma aumentar quando a área comprometida é maior, quando existe colapso subcondral, e quando há sobrecarga persistente do compartimento afetado.

Na prática, isso muda a estratégia: lesões pequenas e sem colapso tendem a responder melhor ao tratamento conservador.

Lesões maiores, sintomáticas e progressivas podem exigir intervenção para preservar o joelho e reduzir o risco de artrose acelerada.

Tratamento conservador: quando dá para evitar cirurgia

O tratamento sem cirurgia tende a funcionar melhor quando a lesão é pequena, o joelho ainda não colapsou e os sintomas estão controláveis.

Em geral, o plano combina proteção da área, controle de dor e reabilitação.

Principais pilares:

  • Descarga parcial de peso: reduzir a carga (às vezes com muletas) por um período definido pelo especialista, com progressão conforme dor e exames.
  • Controle da dor e inflamação: analgésicos e anti-inflamatórios podem ser usados com orientação médica, sem a promessa de “curar” a lesão.
  • Fisioterapia: fortalecimento de quadríceps e glúteos, treino de marcha, propriocepção e melhora de mobilidade, com ajuste do volume conforme tolerância.
  • Ajustes biomecânicos: palmilhas, brace e correção de desalinhamentos podem ser indicados em alguns perfis.
  • Revisão de fatores de risco: peso corporal, saúde óssea, e medicações que impactam o osso devem ser avaliados em conjunto com o médico assistente.

Acompanhamento é importante. Persistência de dor, piora funcional ou sinais de colapso na imagem sugerem necessidade de escalonamento.

Procedimentos e cirurgias: quando indicar e quais são as opções

Quando a lesão é maior, não melhora com tratamento conservador, ou já existe colapso, pode ser necessário intervir.

O objetivo pode ser preservar o joelho (quando possível) ou substituir a articulação quando a doença está avançada.

Descompressão do osso subcondral (core decompression)

São perfurações controladas no osso subcondral para reduzir pressão intraóssea e estimular revascularização. Em alguns casos, pode ser associada a enxerto ósseo.

Enxertos osteocondrais e biomateriais

Em defeitos focais, técnicas como OATS (mosaicoplastia) transferem cilindros de osso e cartilagem de uma área menos carregada para a região do defeito.

Também pode haver preenchimento do defeito subcondral com enxerto autólogo, alógeno ou substitutos sintéticos, visando restaurar suporte.

Osteotomia de realinhamento

Indicada quando o eixo do membro concentra carga no compartimento doente.

O realinhamento redistribui forças e pode aliviar a região comprometida, especialmente em pessoas mais jovens e com doença localizada.

Artroplastia unicompartimental ou total

  • Unicompartimental: quando o problema está restrito a um compartimento, com ligamentos preservados.
  • Total: em casos avançados, comprometimento difuso, deformidades ou falhas terapêuticas prévias.

O planejamento e a reabilitação guiada são decisivos para recuperar função e qualidade de vida.

Reabilitação: o que esperar do retorno às atividades

A recuperação é contínua e exige consistência. Um roteiro geral costuma incluir:

  • Progressão do apoio e dos exercícios guiada por dor e função, sem “forçar para ver se passa”.
  • Fortalecimento em cadeia cinética fechada e treino de estabilidade do quadril para reduzir carga no joelho.
  • Mobilidade para evitar rigidez, com foco em extensão completa e flexão confortável.
  • Retorno ao esporte por etapas, priorizando baixo impacto (bike, natação, elíptico) antes de correr e saltar.

O tempo total varia conforme o tamanho da lesão, presença de colapso, idade, e estratégia escolhida.

Prevenção de recaídas e cuidado a longo prazo

Depois de controlar o quadro, algumas medidas ajudam a reduzir risco de recorrência e de progressão para artrose:

  • Gestão de peso corporal para reduzir carga articular.
  • Fortalecimento de core e cadeia posterior para melhor absorção de impacto.
  • Monitoramento de medicações que influenciam a saúde óssea com seu médico.
  • Exames de controle quando indicados, especialmente após lesões maiores ou procedimentos.

Quando procurar avaliação

Procure atendimento em clínica de ortopedia se houver:

  • Dor súbita no joelho que não melhora em alguns dias.
  • Inchaço recorrente após esforços moderados.
  • Histórico de corticoide crônico, distúrbios hematológicos ou cirurgia prévia no joelho, com dor nova.

Uma consulta com ortopedista do joelho e fisioterapeuta experiente ajuda a definir o estágio, alinhar expectativas e escolher o melhor caminho terapêutico.

Em Goiânia, uma avaliação presencial com equipe de ortopedistas especializados também pode facilitar o diagnóstico e condução do tratamento.

Perguntas frequentes

A osteonecrose dos côndilos femorais tem cura?

Pode haver melhora importante e até resolução do quadro em lesões pequenas e diagnosticadas cedo, especialmente quando se protege a área e se reabilita bem. Em lesões maiores ou com colapso, o foco costuma ser controlar dor, preservar função e evitar progressão rápida para artrose.

Quanto tempo demora o tratamento?

Varia bastante. Em quadros iniciais, pode levar semanas a alguns meses para recuperação funcional com descarga de peso e fisioterapia. Em casos com cirurgia, o tempo depende do procedimento e do objetivo (preservar o osso, realinhar o eixo, ou substituir a articulação).

Preciso de cirurgia imediatamente?

Não necessariamente. Muitos casos iniciais respondem ao tratamento conservador, desde que exista boa adesão e acompanhamento. Cirurgia entra quando a lesão é grande, progressiva, ou quando há colapso e limitação funcional persistente.

A ressonância é sempre necessária?

A radiografia costuma ser o primeiro exame, mas pode não mostrar alterações no começo. A ressonância é a melhor para detectar edema ósseo e fratura subcondral nas fases iniciais, além de avaliar lesões associadas. O médico decide caso a caso.

O que muda entre artroplastia unicompartimental e total?

A unicompartimental substitui apenas o compartimento doente, e pode ser opção quando a doença é localizada e os ligamentos estão preservados. A total é indicada quando o comprometimento é mais amplo, com deformidade, artrose avançada ou falhas de tratamentos prévios.

Referências

  • Subchondral insufficiency fracture of the knee, PMC (NIH), 2021, https:/articles/PMC9068663/, acesso em 8 fev 2026. (PMC)
  • Spontaneous Osteonecrosis of the Knee (SONK), Orthobullets, 2025, https://www.orthobullets.com/knee-and-sports/3026/spontaneous-osteonecrosis-of-the-knee-sonk, acesso em 8 fev 2026. (Orthobullets)
  • Osteonecrosis of the Knee, OrthoInfo (AAOS), s.d., https://orthoinfo.aaos.org/en/diseases–conditions/osteonecrosis-of-the-knee, acesso em 8 fev 2026. (OrthoInfo)
  • Osteonecrosis, MSD Manuals (Home), 2024, https://www.msdmanuals.com/home/bone-joint-and-muscle-disorders/osteonecrosis/osteonecrosis, acesso em 8 fev 2026. (MSD Manuals)
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  • Subchondral insufficiency fracture of the knee, Radiopaedia, s.d., https://radiopaedia.org/articles/subchondral-insufficiency-fracture-of-the-knee, acesso em 8 fev 2026. (Radiopaedia)
  • Subchondral Insufficiency Fracture of the Knee, Radsource, s.d., https://radsource.us/subchondral-insufficiency-fracture-of-the-knee/, acesso em 8 fev 2026. (radsource.us)
  • Ressonância magnética da osteonecrose do joelho, SciELO (Radiologia Brasileira), 2010, https://www.scielo.br/j/rb/a/Wd4Bnwz98dq46sH4MSJ9j7D/, acesso em 8 fev 2026. (SciELO)
  • Osteonecrose idiopática do joelho, Revista Brasileira de Ortopedia (RBO), s.d., https://rbo.org.br/detalhes/103/pt-BR/osteonecrose-idiopatica-do-joelho, acesso em 8 fev 2026. (Revista Brasileira de Ortopedia)
  • Subchondral insufficiency fractures: overview of MRI findings, Thieme (Fortschr Röntgenstr), 2024, https://www.thieme-connect.com/products/ejournals/pdf/10.1055/a-2344-5337.pdf, acesso em 8 fev 2026. (thieme-connect.com)

Dr. Ulbiramar Correia

Especialista em ortopedia de joelho, CRM/GO 11552, SBOT 12166 e RQE 7240. Membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ), Sociedade Brasileira de Artroscopia e Trauma Esportivo (SBRATE) e Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT).

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