Tratamentos

Células-tronco no Pé e Tornozelo: Como Funciona e Indicações

Conheça o tratamento com células-tronco no pé e tornozelo para regenerar tecidos, acelerar a recuperação de lesões e tratar artrose de forma inovadora.

Lesões de cartilagem, problemas nos tendões e artrose podem deixar o pé ou o tornozelo dolorido por meses, mesmo depois de fisioterapia, mudança da carga de exercícios e outras medidas conservadoras.

Nesse cenário, o tratamento com células-tronco no pé e tornozelo passou a chamar atenção dentro da medicina regenerativa e dos ortobiológicos. A expressão, porém, reúne técnicas diferentes e precisa ser usada com cuidado.

Na prática ortopédica, muitos procedimentos divulgados como terapia com células-tronco utilizam concentrado de aspirado de medula óssea, conhecido como BMAC.

O material contém diferentes células e substâncias biologicamente ativas, mas não equivale a uma cultura de células-tronco mesenquimais isoladas e multiplicadas em laboratório.

Essa distinção ajuda a entender o que realmente está sendo aplicado e evita expectativas de “regenerar” cartilagem ou tendão de maneira garantida.

Células-tronco no pé e tornozelo: quando podem ser consideradas?

Não existe uma lista única de diagnósticos em que a aplicação seja automaticamente indicada.

O ortopedista precisa identificar qual estrutura está lesionada, quanto o problema compromete a função, os tratamentos já realizados e se existe alguma alteração mecânica que continuará sobrecarregando a região.

Entre as situações nas quais técnicas celulares e ortobiológicas vêm sendo estudadas, destacam-se:

  • Lesões osteocondrais e defeitos de cartilagem do tálus;
  • Alguns casos de artrose do tornozelo;
  • Determinadas lesões do tendão de Aquiles;
  • Problemas de cicatrização óssea em contextos selecionados;
  • Procedimentos cirúrgicos nos quais o ortobiológico é utilizado como complemento.

As lesões osteocondrais do tálus estão entre as condições mais investigadas. Quem quiser entender melhor o problema pode consultar o conteúdo sobre lesão osteocondral do tálus em atletas.

As pesquisas atuais mostram resultados clínicos interessantes em alguns grupos, principalmente quando o concentrado de medula óssea é empregado junto de técnicas cirúrgicas de reparo.

O que é BMAC e por que ele aparece tanto nesse tratamento?

O BMAC é preparado a partir do aspirado da medula óssea do próprio paciente. Depois da coleta, o material passa por um processo de concentração.

O produto obtido não é formado somente por células-tronco. Ele reúne diferentes componentes, como células nucleadas, plaquetas, proteínas, citocinas e uma pequena população de células progenitoras.

Por isso, falar simplesmente em “injeção de células-tronco” pode dar uma impressão equivocada sobre o procedimento.

O conteúdo sobre BMAC no pé e tornozelo explica com mais detalhes como o concentrado é obtido e em quais situações ele pode entrar na estratégia ortopédica.

BMAC é igual a células-tronco cultivadas?

Não.

Uma coisa é colher medula óssea, concentrar determinados componentes e utilizar esse material dentro de um procedimento definido. Outra é isolar células e promover sua expansão em laboratório.

Essa diferença interfere no produto final, nas evidências disponíveis e também nas exigências regulatórias.

A Anvisa alerta que produtos à base de células-tronco cultivadas não devem ser oferecidos indiscriminadamente como tratamentos comprovados.

A agência mantém regras específicas para produtos de terapias avançadas e orienta que promessas de cura sem respaldo científico sejam vistas com cautela.

Como o tratamento pode atuar nos tecidos?

O interesse pelo BMAC não depende apenas da ideia de que as células aplicadas se transformariam diretamente em uma nova cartilagem ou em um novo tendão.

Hoje, boa parte da investigação está voltada ao ambiente biológico criado depois da aplicação.

Os componentes do concentrado podem participar de processos ligados a:

  • Sinalização entre células;
  • Modulação da resposta inflamatória;
  • Atividade de fatores relacionados ao reparo;
  • Interação com células já presentes no tecido;
  • Resposta biológica do local lesionado.

O efeito exato varia conforme o tecido, o diagnóstico, a forma de preparo do material e a técnica utilizada. Não é correto garantir que o procedimento fará uma cartilagem desgastada voltar ao estado original.

Lesão de cartilagem do tálus é uma das principais áreas de estudo

O tálus é um dos ossos centrais do tornozelo. Parte de sua superfície fica revestida por cartilagem e recebe carga sempre que a pessoa caminha, corre ou salta.

Uma entorse pode lesionar ao mesmo tempo a cartilagem e o osso localizado abaixo dela. Alguns pacientes continuam com dor profunda no tornozelo, inchaço após esforço ou limitação para praticar esporte mesmo depois da recuperação inicial da torção.

Nesses casos, o tratamento depende de fatores como:

  1. Tamanho e profundidade da lesão.
  2. Condição do osso subcondral.
  3. Presença de cistos.
  4. Estabilidade do fragmento.
  5. Alinhamento do tornozelo.
  6. Histórico de cirurgias anteriores.
  7. Nível de atividade do paciente.

O BMAC pode ser empregado em determinados protocolos, muitas vezes junto de procedimentos destinados ao reparo da lesão.

Uma revisão sistemática publicada em 2025 encontrou melhora de dor e função em diferentes estudos, mas também apontou resultados inconsistentes e predominância de pesquisas não randomizadas.

E nos casos de artrose do tornozelo?

A artrose do tornozelo envolve alterações progressivas na articulação. Dor ao caminhar, rigidez, inchaço e perda de movimento podem aparecer à medida que o quadro evolui.

Traumas antigos, fraturas e instabilidade são causas frequentes nesse local.

Quem procura informações específicas pode consultar também o artigo sobre artrose do tornozelo, suas causas e tratamentos.

O BMAC vem sendo estudado como uma possível estratégia de preservação articular em casos selecionados. A literatura ainda não permite afirmar que ele restaura completamente a cartilagem ou interrompe a progressão da artrose.

Estudos recentes descrevem os resultados como promissores, porém inconclusivos.

Em uma articulação muito comprometida, com deformidade, desalinhamento ou perda estrutural avançada, um procedimento biológico isolado pode não corrigir a causa mecânica da dor.

Células-tronco podem tratar problemas nos tendões?

Esse é outro ponto em que a indicação precisa ser individualizada.

O tendão de Aquiles aparece em estudos com BMAC, principalmente em pesquisas envolvendo lesões mais específicas. Ainda não existe evidência de alta qualidade suficiente para transformar a aplicação em tratamento padrão para qualquer dor no Aquiles.

O tratamento de uma tendinopatia continua envolvendo medidas como controle adequado de carga, exercícios progressivos, correção de fatores associados e fisioterapia.

Quando a dor lateral do pé ou tornozelo não melhora, um ortopedista de pé e tornozelo com atendimento humanizado pode avaliar o tendão, a estabilidade articular e os exames antes de discutir procedimentos.

Como é feita a avaliação antes do procedimento?

Antes de escolher uma técnica ortobiológica, o diagnóstico precisa estar claro.

A consulta investiga quando a dor começou, quais movimentos provocam sintomas, histórico de entorses ou fraturas, tratamentos anteriores, atividade esportiva e impacto do quadro na rotina.

O exame físico pode avaliar mobilidade, alinhamento, estabilidade ligamentar, força muscular e o local exato da dor.

Conforme a suspeita, podem ser solicitados:

  • Radiografias com carga;
  • Ultrassonografia;
  • Ressonância magnética;
  • Tomografia computadorizada.

A imagem não serve apenas para confirmar uma lesão. Ela ajuda a identificar fatores mecânicos que podem mudar completamente o tratamento.

Como funciona o procedimento?

O protocolo muda conforme o material utilizado e a lesão tratada.

Quando a opção escolhida é o BMAC, um fluxo possível envolve:

  1. Coleta da medula óssea: geralmente em um local definido pelo médico, utilizando técnica estéril e analgesia ou anestesia adequada.
  2. Processamento: o aspirado passa por concentração para obtenção do produto que será utilizado.
  3. Definição do alvo: exames e avaliação clínica determinam onde o material deve ser aplicado.
  4. Aplicação: pode ser realizada com auxílio de ultrassom, radioscopia ou durante um procedimento cirúrgico.
  5. Reabilitação: carga, exercícios e retorno às atividades são ajustados ao tipo de lesão.

A aplicação do ortobiológico não encerra o tratamento. Em muitos casos, a parte mecânica da recuperação tem peso tão grande quanto o procedimento.

O papel da reabilitação depois da aplicação

Pé e tornozelo recebem carga milhares de vezes durante um dia comum. Não basta esperar que o tecido “se regenere” sem controlar essas forças.

O programa de recuperação pode incluir mobilidade, fortalecimento da panturrilha, musculatura do pé e estabilizadores do tornozelo.

Também podem entrar no plano:

  • Treino de equilíbrio e propriocepção;
  • Progressão da carga de caminhada;
  • Ajuste temporário das atividades esportivas;
  • Avaliação do calçado;
  • Uso de órteses ou palmilhas quando houver indicação;
  • Recuperação da força antes da volta ao impacto.

O ritmo depende do tecido tratado. Uma lesão cartilaginosa não segue necessariamente o mesmo protocolo de um problema tendíneo.

Quando voltar a caminhar, correr ou praticar esporte?

Não há um calendário único. O retorno depende da técnica realizada, do diagnóstico e de como o paciente responde à reabilitação.

Caminhar com pouca dor não significa que o tornozelo já esteja pronto para corrida, salto ou mudança rápida de direção. Essas tarefas exigem níveis bem maiores de força e controle.

O acompanhamento avalia critérios como:

  • Dor e inchaço após atividade;
  • Mobilidade;
  • Força de panturrilha;
  • Estabilidade;
  • Equilíbrio;
  • Tolerância progressiva ao impacto.

A volta ao esporte deve seguir esses parâmetros, não apenas o número de semanas transcorridas.

Quais são os riscos e limitações?

Procedimentos com coleta e aplicação de material biológico não são isentos de risco.

Podem ocorrer dor no local da coleta, hematoma, desconforto após a aplicação, reação inflamatória e, menos frequentemente, infecção ou outras complicações relacionadas à técnica utilizada.

Também existem limites claros. Um ortobiológico não corrige sozinho:

  • Deformidades importantes;
  • Desalinhamentos significativos;
  • Instabilidade mecânica grave;
  • Rupturas que precisam de reparo;
  • Artrose terminal com destruição articular relevante.

Nessas situações, insistir em uma proposta “regenerativa” pode atrasar um tratamento mais apropriado.

Resultados: o que esperar do tratamento?

As pesquisas em pé e tornozelo ainda apresentam protocolos muito diferentes entre si. Alguns estudos utilizam BMAC como aplicação isolada; outros o associam a microperfurações, scaffolds, transplantes ou procedimentos cirúrgicos.

Isso dificulta saber qual parcela do resultado veio especificamente do concentrado, portanto, a conversa antes do tratamento precisa incluir esse grau de incerteza.

O tratamento de uma lesão no pé ou tornozelo deve partir do diagnóstico, não do procedimento que se deseja realizar. Em alguns pacientes, fisioterapia e ajuste de carga bastam. Em outros, procedimentos ortobiológicos ou cirurgia podem entrar na discussão.

A melhor escolha depende do que está causando a dor, da extensão da lesão e do que precisa ser recuperado para que o paciente volte às suas atividades com segurança.

Perguntas frequentes

Células-tronco no pé e tornozelo regeneram a cartilagem?

Não é possível garantir regeneração completa da cartilagem. Técnicas como o BMAC vêm sendo estudadas para favorecer o ambiente de reparo, mas os resultados variam conforme a lesão e o procedimento realizado.

BMAC e células-tronco são a mesma coisa?

Não exatamente. O BMAC é um concentrado obtido da medula óssea que contém diversos componentes celulares e bioativos, incluindo uma pequena população de células progenitoras.

Células-tronco podem ser usadas na artrose do tornozelo?

Técnicas celulares são pesquisadas em casos selecionados, principalmente nas fases em que se busca preservar a articulação. A evidência ainda não permite afirmar que o tratamento reverta a artrose.

Quem tem tendinite fibular pode fazer esse tratamento?

A tendinite ou tendinopatia fibular precisa ser investigada antes. Carga inadequada, instabilidade, alterações anatômicas e rupturas podem mudar a conduta, e o uso de ortobiológicos não é indicado automaticamente.

Dr. Bruno Air

Ortopedista especialista em Pé e Tornozelo em Goiânia, CRM/GO 16354 e RQE 8226. Graduado pela Universidade Federal de Minas Gerais (2009-2011), com especialização em Cirurgia do Pé e Tornozelo pela Universidade Federal de Goiás e estágio no Massachussets General Hospital, Harvard University (2017).

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