Ombro e Cotovelo

Lesão de Bankart: sintomas, causas e tratamento

Entenda o que é lesão de Bankart e como recuperar a mobilidade do ombro.

A lesão de Bankart é uma lesão do “lábio” (labrum) da glenoide, uma estrutura que ajuda a manter o ombro estável.

Ela costuma aparecer depois de uma luxação anterior do ombro, quando a cabeça do úmero sai do lugar e força a borda anterior da articulação.

Se não for bem tratada, pode aumentar a chance de instabilidade do ombro e novas luxações, inclusive em movimentos do dia a dia.

    O que é a lesão de Bankart

    A articulação do ombro (glenoumeral) funciona como uma bola (cabeça do úmero) encaixada em uma cavidade rasa (glenoide, na escápula).

    O labrum é um anel de fibrocartilagem que aumenta a profundidade desse encaixe e serve de ponto de fixação para ligamentos importantes.

    Na lesão de Bankart, o labrum se descola na região anteroinferior (frente e parte de baixo) da glenoide.

    Com isso, o ombro perde parte do travamento natural e pode ficar mais suscetível a subluxações (quase sair do lugar) e luxações.

    Bankart de partes moles vs Bankart ósseo

    • Bankart de partes moles: descolamento do labrum e cápsula, sem fratura relevante.
    • Bankart ósseo (bony Bankart): além do labrum, há fratura ou perda de osso na borda anteroinferior da glenoide, o que tende a aumentar a instabilidade.

    Também é comum existir lesão associada, como a lesão de Hill-Sachs (impacto/afundamento na cabeça do úmero após a luxação).

    Em alguns casos aparecem variações do labrum, como ALPSA, ou outras lesões labrais, como SLAP.

    Por que acontece

    Na maioria das vezes, ela acontece durante uma luxação anterior do ombro, geralmente quando o braço está aberto para o lado (abdução) e rodado para fora (rotação externa).

    Essa posição facilita o deslocamento para frente e força a borda anterior da articulação.

    Alguns fatores aumentam o risco de ocorrer e de voltar a acontecer:

    • Esportes de contato (lutas, futebol, judô) e esportes com arremesso (handebol, vôlei).
    • Quedas com o braço estendido.
    • Retorno precoce ao treino sem reabilitação adequada.
    • Hiperlaxidade ligamentar (ligamentos mais “frouxos”).
    • Falhas de controle escapular e fraqueza do manguito rotador.

    Sinais e sintomas mais comuns

    Os sintomas podem variar conforme a extensão da lesão e se há instabilidade. Os mais frequentes incluem:

    • Sensação de falseio ou de que o ombro vai sair do lugar em certas posições.
    • Dor ao levantar o braço, principalmente com abdução e rotação externa.
    • Estalos, desconforto e insegurança ao movimentar.
    • Perda de força e piora do desempenho esportivo.
    • Luxações repetidas, às vezes em gestos simples (vestir roupa, alcançar algo alto).

    Um sinal bem típico é a apreensão: a pessoa evita ou trava o movimento por medo de o ombro deslocar.

    Como é feito o diagnóstico

    O diagnóstico feito por ortopedista especialista em ombro começa com conversa clínica e exame físico, incluindo testes de instabilidade.

    O objetivo é entender como foi a luxação, quantas vezes aconteceu e em quais posições o ombro ameaça sair.

    Os exames de imagem ajudam a confirmar a lesão e a medir a gravidade:

    • Radiografias: avaliam alinhamento e fraturas, e ajudam a investigar lesões ósseas.
    • Ressonância magnética (às vezes com contraste, como artro-RM): avalia labrum, cápsula e tendões.
    • Tomografia: útil para quantificar perda óssea da glenoide e analisar melhor defeitos ósseos.

    Essa combinação é importante porque a decisão entre reabilitação e cirurgia depende muito de instabilidade clínica, perfil do paciente e tamanho de lesões ósseas.

    Tratamento sem cirurgia: quando pode funcionar

    Nem todo caso exige cirurgia. Em geral, o tratamento conservador tende a fazer mais sentido quando:

    • Não há sensação de instabilidade recorrente.
    • A pessoa não pratica esporte de contato ou atividades com alto risco para o ombro.
    • Não existe perda óssea relevante na glenoide.
    • A reabilitação é bem feita, com progressão e acompanhamento.

    A fisioterapia costuma focar em:

    • Fortalecimento do manguito rotador e deltoide.
    • Estabilizadores da escápula e controle escapular.
    • Propriocepção e controle neuromuscular.
    • Retorno gradual a movimentos acima da cabeça e gestos esportivos.

    Se a instabilidade persistir ou se as luxações voltarem, a conduta costuma ser reavaliada.

    Quando a cirurgia é indicada

    A cirurgia costuma ser considerada quando há maior risco de recidiva ou quando a instabilidade atrapalha a vida e o esporte. Situações comuns:

    • Luxações ou subluxações recorrentes.
    • Atletas de contato, combate ou arremesso com instabilidade.
    • Falha do tratamento conservador bem conduzido.
    • Lesões ósseas relevantes (Bankart ósseo, perda óssea da glenoide, Hill-Sachs importante).
    • Instabilidade com apreensão marcante em posições de risco.

    Principais técnicas cirúrgicas

    A escolha da técnica depende do tipo de lesão e da anatomia. Em geral, as opções entram dentro do que se considera nos tipos de cirurgia do ombro para estabilização:

    • Reparo de Bankart por artroscopia: reinserção do labrum na glenoide com âncoras e ajuste da cápsula.
    • Reparo aberto (open Bankart): indicado em cenários específicos.
    • Procedimentos de aumento ósseo: usados quando há perda óssea anterior significativa.
    • Remplissage (em alguns casos): pode ser associado quando há Hill-Sachs com risco de engatar.

    O objetivo é restaurar a estabilidade e reduzir a chance de novas luxações, com retorno seguro às atividades.

    Reabilitação: fases e metas (de forma prática)

    Os prazos variam conforme técnica, grau de instabilidade e resposta individual. A lógica costuma seguir fases:

    1. Fase 1 (início): controle de dor e edema, proteção do ombro e manutenção de punho/cotovelo.
    2. Fase 2 (mobilidade): ganho gradual de amplitude, sem forçar posições de risco.
    3. Fase 3 (força e controle): fortalecimento progressivo do manguito e estabilizadores escapulares, mais propriocepção.
    4. Fase 4 (função e esporte): retorno a gestos específicos, cargas e contato de forma escalonada.
    5. Alta funcional: quando mobilidade, força e confiança se aproximam do lado saudável e testes funcionais estão adequados.

    Retorno ao esporte e à academia

    Em muitos casos cirúrgicos, o retorno ao esporte fica na faixa de meses, mas o mais importante é cumprir critérios funcionais, não apenas contar semanas.

    Sinais de que a volta está mais segura:

    • Movimento amplo sem dor importante.
    • Força do ombro e escápula bem recuperada.
    • Boa estabilidade em exercícios acima da cabeça.
    • Confiança para executar gestos esportivos sem apreensão.

    Nos esportes de contato, a liberação costuma ser mais criteriosa, porque o risco de trauma direto é maior.

    Prevenção de recidivas

    Mesmo após melhora ou cirurgia, a prevenção é parte do tratamento. Alguns pontos que ajudam:

    • Respeitar o tempo de reabilitação, sem acelerar fases.
    • Manter fortalecimento do manguito, deltoide e estabilizadores da escápula.
    • Treinar propriocepção e controle motor.
    • Evitar, no retorno inicial, a posição clássica de risco (abdução + rotação externa).
    • Ajustar técnica esportiva e periodização de treinos, principalmente em arremesso.

    Manter acompanhamento de perto em um centro de ortopedia costuma fazer diferença no longo prazo.

    Quando procurar avaliação médica

    É essencial solicitar orientação com ortopedistas especialistas em ombro se houver:

    • Sensação recorrente de o ombro sair do lugar.
    • Episódios repetidos de luxação ou subluxação.
    • Dor que limita rotina, treino ou sono.
    • Estalos acompanhados de insegurança e perda de força.

    Em caso de luxação que não volta ao lugar, dor intensa, dormência no braço ou mão, ou fraqueza súbita, procure atendimento imediato.

    Perguntas frequentes

    A lesão de Bankart sempre precisa de cirurgia?

    Não necessariamente. Se não há instabilidade recorrente, se não existe perda óssea relevante e se a pessoa não pratica esporte de alto risco, a fisioterapia pode controlar sintomas e melhorar estabilidade. Já quando há repetição de luxações, apreensão importante, esporte de contato ou lesões ósseas associadas, a cirurgia costuma oferecer melhor chance de estabilizar o ombro e reduzir recidivas.

    Qual a diferença entre lesão de Bankart e lesão de Hill-Sachs?

    A lesão de Bankart é o descolamento do labrum na parte anterior da glenoide, o que favorece instabilidade do ombro. A lesão de Hill-Sachs é um defeito por impacto na cabeça do úmero, que aparece quando o osso “bate” na borda da glenoide durante a luxação. Elas podem acontecer juntas no mesmo episódio e, quando relevantes, influenciam a escolha do tratamento.

    Quanto tempo demora para voltar ao esporte depois da cirurgia?

    Varia conforme o tipo de cirurgia, o esporte e a evolução na reabilitação. Em muitas situações, o retorno progressivo ocorre em alguns meses, mas a liberação depende de critérios funcionais, como força, mobilidade, controle escapular e ausência de apreensão em gestos específicos. Esportes de contato e arremesso costumam exigir mais cautela e uma progressão mais gradual.

    O que caracteriza a lesão de Bankart ósseo?

    No Bankart ósseo existe fratura ou perda de osso na borda anteroinferior da glenoide, além da lesão do labrum. Isso tende a aumentar a instabilidade e pode elevar a chance de falha se o tratamento não considerar a parte óssea. Por isso, tomografia e medidas de perda óssea podem ser importantes, e procedimentos de aumento ósseo podem ser indicados em casos selecionados.

    Dá para treinar com lesão de Bankart?

    Depende do nível de instabilidade e do tipo de treino. Movimentos acima da cabeça, cargas altas e posições de risco podem provocar novos episódios e piorar a lesão. Em geral, a recomendação é ajustar o treino e priorizar reabilitação até haver estabilidade e liberação profissional. Treinar “por cima da dor” e com apreensão costuma aumentar o risco de recidiva.

      Dr. Thiago Barbosa Caixeta

      Especialista em cirurgia minimamente invasiva de ombro e cotovelo em Goiânia, CRM/GO 1329, SBOT e RQE 8070. Membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), Sociedade Brasileira de Cirurgia do Ombro e Cotovelo (SBCOC), Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte (SBRATE) e Sociedade Latinoamericana de Artroscopia e Reconstrução Articular Traumato Desportiva (SLARD).

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