Ombro e Cotovelo

Doença de Panner: sintomas, diagnóstico e tratamento

Entenda a Doença de Panner, uma condição que afeta a articulação do cotovelo em crianças, seus sintomas e o tratamento conservador para a recuperação.

A Doença de Panner é uma alteração do cotovelo que acontece em crianças, principalmente nas que praticam esportes com arremesso ou apoio repetido do braço.

Ela afeta o capítulo umeral (uma parte arredondada do osso do braço que articula com o rádio).

Na maior parte dos casos, é uma condição benigna e temporária. Com descanso, controle da dor e reabilitação, a recuperação costuma ser muito boa.

O que é a Doença de Panner

A Doença de Panner é uma osteocondrose do capítulo umeral.

Em termos simples, ocorre um sofrimento temporário do centro de ossificação (a região que está se tornando osso durante o crescimento), o que pode causar dor e rigidez.

Essa mudança é diferente de uma fratura. Ela costuma se resolver à medida que a cartilagem de crescimento se recupera e o osso amadurece.

Quem costuma ter

O quadro aparece com mais frequência em crianças em fase de crescimento, geralmente entre 5 e 12 anos. Meninos ativos são citados com maior frequência, mas meninas também podem ter.

Costuma afetar apenas um cotovelo, muitas vezes o do braço dominante. É mais comum em esportes com repetição de arremesso, salto com apoio ou carga no membro superior, como:

  • Beisebol e outros esportes de arremesso.
  • Ginástica (apoio do peso no braço).
  • Esportes com movimentos repetidos acima da cabeça.

Por que acontece

A causa exata nem sempre é possível apontar.

Em geral, a Doença de Panner é associada a uma combinação de sobrecarga repetitiva, microtraumas e um período de menor irrigação (isquemia transitória) na região em crescimento.

Na prática, o ponto principal é que o cotovelo está recebendo mais carga do que consegue tolerar naquele momento do desenvolvimento.

Sinais e sintomas mais comuns

A dor tende a ficar na parte lateral do cotovelo. Ela piora ao arremessar, apoiar o braço no chão ou forçar a extensão (esticar totalmente).

Os sintomas mais relatados incluem:

  • Dor lateral no cotovelo durante ou após atividade.
  • Rigidez e perda de extensão.
  • Sensibilidade ao apertar a região do capítulo umeral.
  • Inchaço leve em alguns casos.
  • Estalos ou sensação de “areia” ao movimentar, de forma ocasional.

Se houver travamento do cotovelo, aumento importante do inchaço ou dor forte que não melhora com repouso, é importante avaliar outras possibilidades com ortopedistas experientes em problemas de ombro.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é clínico e por imagem. O médico avalia a história (dor relacionada ao esporte e à repetição), examina a amplitude de movimento e procura pontos de dor à palpação.

Também é importante diferenciar a Doença de Panner de outras causas de dor no cotovelo infantil, principalmente a osteocondrite dissecante (OCD) do capítulo umeral, que é mais comum em adolescentes e pode ter outro tipo de evolução.

Exames de imagem mais usados

A radiografia (raio X) costuma ser o primeiro exame. Ela pode mostrar irregularidade do contorno do capítulo umeral, áreas de esclerose e rarefação, dependendo da fase do problema.

A ressonância magnética pode ser útil quando a radiografia é normal ou pouco clara, ou quando há dúvida com outras condições.

Ela costuma mostrar edema ósseo e alterações subcondrais, além de ajudar a avaliar derrame articular.

O que pode parecer Panner, mas não é

Algumas situações podem dar sintomas parecidos e exigem condutas diferentes. Entre os exemplos estão:

Por isso, o contexto da idade, do esporte praticado e da imagem faz diferença.

Tratamento: o que costuma funcionar

Na maioria dos casos, o tratamento é conservador. O objetivo é diminuir a dor, proteger a área em regeneração e recuperar mobilidade e força com segurança.

As medidas mais usadas são:

  • Pausa temporária da atividade que provoca dor (principalmente arremessos e apoios).
  • Gelo por períodos curtos para reduzir dor e inchaço.
  • Analgésicos simples quando necessários (sempre com orientação).
  • Imobilização por curto período em casos selecionados, quando a dor é maior.
  • Fisioterapia para recuperar amplitude, força e controle do movimento, com progressão gradual.

Uma parte importante do tratamento é ajustar a carga e técnica do esporte. Voltar rápido demais, ou voltar do mesmo jeito, aumenta o risco de sintomas persistirem.

Quando a imobilização pode ser indicada

Nem toda criança precisa de tipoia ou tala. A imobilização costuma ser reservada para fases mais dolorosas, quando o cotovelo está muito sensível e a criança perde movimento por dor.

Quando usada, geralmente é por tempo curto, seguida de exercícios guiados para evitar rigidez.

Cirurgia é comum?

Não. Cirurgia não é o padrão na Doença de Panner.

Ela só é considerada em situações raras, como dor persistente e limitação funcional importante apesar de tratamento bem conduzido, ou quando há suspeita de fragmentos soltos na articulação (o que é mais típico de outros diagnósticos).

Retorno ao esporte e prognóstico

O prognóstico costuma ser favorável. Muitos pacientes melhoram em semanas a alguns meses, com retorno progressivo das atividades quando a dor some e a mobilidade volta.

Nem sempre o exame de imagem normaliza na mesma velocidade dos sintomas. Por isso, o retorno ao esporte deve seguir critérios funcionais, e não apenas o calendário.

Em geral, a volta é mais segura quando a criança:

  • Está sem dor nas atividades do dia a dia.
  • Recuperou a amplitude de movimento, principalmente extensão.
  • Recuperou força e controle do ombro, antebraço e punho.
  • Consegue retomar gestos esportivos de forma gradual, sem piorar sintomas.

Em esportes de arremesso, programas graduais (aumentando volume e intensidade aos poucos) ajudam a reduzir recidivas.

Cuidados práticos no dia a dia

Alguns ajustes simples ajudam a recuperar mais rápido e evitam que a dor volte:

  1. Evitar sobrecarga repetitiva do cotovelo durante a fase dolorosa.
  2. Respeitar intervalos de descanso entre treinos e jogos.
  3. Reduzir volume de arremessos e revisar técnica com orientação.
  4. Fortalecer ombro, antebraço e músculos do core.
  5. Retomar gradualmente, monitorando dor e amplitude.

Se a criança faz mais de um esporte, vale observar se a soma das cargas está alta demais para a fase de crescimento.

Quando procurar avaliação

Procure uma clínica de ortopedia com abordagem diagnóstica integrada se:

  • A dor lateral no cotovelo durar mais de 2 semanas.
  • Houver perda de extensão que não melhora com repouso.
  • Existir inchaço persistente, travamento ou piora progressiva.
  • A dor aparecer mesmo com atividades leves, ou impedir a criança de usar o braço normalmente.

Em crianças atletas, o acompanhamento ajuda a garantir cicatrização adequada e retorno mais seguro ao esporte.

Perguntas frequentes

A Doença de Panner precisa de cirurgia?

Na maioria dos casos, não. O tratamento costuma ser conservador, com pausa das atividades dolorosas, medidas para controle da dor e fisioterapia para recuperar mobilidade e força. A cirurgia é rara e, quando considerada, geralmente envolve suspeita de problema associado ou falta de melhora após um plano bem feito. O mais importante é respeitar o tempo do corpo e a progressão gradual.

Quanto tempo leva para melhorar?

O tempo varia de criança para criança. Em muitos casos, a melhora dos sintomas acontece ao longo de semanas a poucos meses, especialmente quando há descanso adequado e reabilitação. A recuperação completa do osso no exame pode demorar mais do que a melhora da dor. Por isso, a liberação para esporte costuma se basear em dor zero, amplitude normal e força adequada.

Qual a diferença para osteocondrite dissecante?

Na Doença de Panner, o acometimento tende a ser mais difuso e aparece em crianças mais novas, com maior chance de resolução ao longo do crescimento. Já a osteocondrite dissecante (OCD) costuma ocorrer em atletas mais velhos (pré-adolescentes e adolescentes), com lesão mais focal e risco maior de fragmentos instáveis. Por isso, a avaliação e o acompanhamento podem ser diferentes.

A criança pode voltar a treinar?

Sim, mas no momento certo e de forma gradual. O ideal é retomar quando não houver dor, quando a extensão do cotovelo estiver recuperada e quando a força e o controle do braço estiverem adequados. Em esportes de arremesso, geralmente é melhor voltar com menos volume e mais descanso, ajustando técnica e carga para evitar nova sobrecarga no capítulo umeral.

    Dr. Thiago Barbosa Caixeta

    Especialista em cirurgia minimamente invasiva de ombro e cotovelo em Goiânia, CRM/GO 1329, SBOT e RQE 8070. Membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), Sociedade Brasileira de Cirurgia do Ombro e Cotovelo (SBCOC), Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte (SBRATE) e Sociedade Latinoamericana de Artroscopia e Reconstrução Articular Traumato Desportiva (SLARD).

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