Pé e Tornozelo

Fratura de Lisfranc: Sintomas, Diagnóstico e Tratamento

Entenda o que é, sinais de alerta e como tratar a fratura de Lisfranc.

A fratura de Lisfranc é uma lesão do médio-pé que pode comprometer ossos, ligamentos e articulações tarsometatársicas. Ela varia desde uma lesão ligamentar discreta até fraturas com luxação e perda importante do alinhamento do pé.

Um dos principais problemas é que algumas lesões parecem, no início, uma entorse comum. Dor no meio do pé, inchaço e dificuldade para apoiar após uma torção merecem atenção, principalmente quando aparece hematoma na planta do pé.

O diagnóstico correto permite avaliar a estabilidade do médio-pé e escolher entre imobilização ou tratamento cirúrgico. A recuperação exige proteção da região, acompanhamento e reabilitação progressiva.

O que é a fratura de Lisfranc?

A região de Lisfranc fica entre o médio-pé e o antepé e participa diretamente da sustentação durante a caminhada. Nessa área estão cinco articulações tarsometatársicas, que conectam os metatarsos aos ossos do tarso.

Cuneiformes, cuboide e bases dos metatarsos formam um conjunto estabilizado por diversos ligamentos. Entre eles está o ligamento de Lisfranc, importante para manter o alinhamento entre o cuneiforme medial e a base do segundo metatarso.

Por isso, o termo lesão de Lisfranc é mais amplo do que fratura. O problema pode apresentar diferentes formas:

  • Ruptura ou distensão dos ligamentos do médio-pé;
  • Fratura de um ou mais ossos;
  • Fratura associada a lesão ligamentar;
  • Subluxação, com perda parcial do alinhamento;
  • Luxação das articulações tarsometatársicas;
  • Combinação de várias dessas alterações.

O complexo de Lisfranc tem pouca mobilidade, mas exerce uma função importante na estabilidade do arco plantar. Durante a marcha, ele também participa da transferência de forças para a parte da frente do pé.

Quando essa estrutura perde estabilidade, atividades simples como ficar em pé, caminhar e impulsionar o corpo podem causar dor. Lesões maiores ainda podem alterar o formato e a distribuição das cargas no pé.

Quais são os sintomas?

Os sintomas dependem da intensidade do trauma e das estruturas comprometidas. Algumas lesões são bastante evidentes, enquanto outras causam sinais semelhantes aos de uma entorse.

Os sintomas mais frequentes são:

  • Dor no médio-pé, especialmente ao ficar em pé ou caminhar;
  • Inchaço no dorso, conhecido como peito do pé;
  • Dificuldade ou incapacidade para apoiar o peso;
  • Hematoma no dorso ou na planta do pé;
  • Sensibilidade intensa ao tocar a região;
  • Deformidade nos casos com desalinhamento importante.

O hematoma na região plantar, principalmente próximo ao arco, é um sinal bastante sugestivo de lesão de Lisfranc. Porém, sua ausência não exclui o problema.

Também pode existir dor durante a tentativa de impulsionar o corpo com o pé afetado. Em traumas maiores, edema intenso, deformidade e alterações de sensibilidade exigem avaliação rápida.

Como acontece a lesão?

A lesão pode ocorrer tanto em acidentes de alta energia quanto em movimentos aparentemente simples. O mecanismo ajuda o médico a entender quais estruturas podem ter sido comprometidas.

Existem dois mecanismos principais.

Trauma indireto

No trauma indireto, o pé permanece apoiado enquanto o corpo continua se movimentando. A combinação de torção, flexão plantar e carga pode forçar as articulações e ligamentos do médio-pé.

Esse mecanismo pode acontecer durante futebol e outros esportes com mudanças rápidas de direção. Também pode ocorrer em tropeços, quedas, escorregões ou quando o pé fica preso enquanto o corpo gira.

Trauma direto

O trauma direto acontece quando uma força atinge o médio-pé. Queda de objeto pesado, acidente de trânsito, queda de altura e impactos fortes são exemplos possíveis.

Esses acidentes podem causar fraturas em vários ossos, luxações e lesões dos tecidos ao redor. Quanto maior a energia envolvida, mais importante é investigar outras estruturas afetadas pelo trauma.

Quando existem múltiplas lesões associadas, a avaliação por uma equipe com formação em diferentes áreas da ortopedia pode contribuir para organizar o diagnóstico e o acompanhamento conforme cada caso.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico começa pela história do trauma e pelo exame físico. O médico avalia a localização da dor, edema, hematomas, alinhamento, capacidade de apoio e sinais de instabilidade.

Como alterações discretas podem passar despercebidas, exames de imagem têm papel importante. Radiografia, tomografia computadorizada e ressonância magnética possuem funções diferentes durante a investigação.

Radiografia do pé

A radiografia geralmente é o primeiro exame de imagem solicitado. As incidências frontal, lateral e oblíqua permitem observar fraturas e analisar o alinhamento das articulações tarsometatársicas.

Em determinadas lesões de baixa energia, podem ser necessárias radiografias com carga, realizadas com o paciente em pé quando isso é clinicamente apropriado.

O médico também pode solicitar comparação com o outro pé, pois isso ajuda a reconhecer diferenças sutis no alinhamento do complexo de Lisfranc.

Tomografia computadorizada

A tomografia mostra os ossos com maior nível de detalhe. Ela pode identificar pequenas fraturas, fragmentos, articulações comprometidas e características que ajudam no planejamento do tratamento.

Esse exame ganha importância em lesões complexas ou quando a radiografia não esclarece completamente o trauma. Também pode ajudar no planejamento cirúrgico quando várias articulações estão envolvidas.

Ressonância magnética

A ressonância magnética permite avaliar melhor ligamentos e outros tecidos moles. Por isso, pode ser considerada quando existe suspeita de uma lesão ligamentar sem fratura evidente.

Ela também pode ajudar quando os sintomas e o exame físico mantêm a suspeita, apesar de outros exames pouco conclusivos. A necessidade de ressonância depende das características de cada caso.

Como é o tratamento?

O tratamento depende principalmente do alinhamento e da estabilidade das articulações. O tipo de fratura, comprometimento dos ligamentos, número de articulações envolvidas e condições do paciente também influenciam a decisão.

De forma geral, lesões estáveis podem ser acompanhadas sem cirurgia. Desalinhamento, deslocamento das fraturas ou instabilidade articular aumentam a possibilidade de tratamento cirúrgico.

Tratamento conservador

O tratamento sem cirurgia pode ser indicado quando a articulação permanece estável e não apresenta deslocamento significativo. A proteção precisa ser rigorosa para evitar perda do alinhamento durante a cicatrização.

O plano pode incluir:

  • Imobilização com gesso ou bota;
  • Período sem apoiar o peso no pé;
  • Uso de muletas quando necessário;
  • Consultas de acompanhamento;
  • Novas radiografias para verificar o alinhamento;
  • Reabilitação gradual após liberação médica.

Em muitos protocolos, a fase inicial de proteção dura aproximadamente 6 a 8 semanas, mas esse período não é igual para todos. A liberação de carga depende da lesão, dos exames e da evolução clínica.

Se o alinhamento mudar durante o acompanhamento, o tratamento precisa ser reavaliado. Por isso, uma lesão inicialmente tratada sem cirurgia ainda exige controle médico.

Quando a cirurgia pode ser necessária?

A cirurgia é considerada quando há fratura deslocada, luxação ou instabilidade das articulações do médio-pé. O objetivo é restabelecer o alinhamento e criar condições para recuperar a estabilidade.

Uma das opções é a redução com fixação interna. Após reposicionar as estruturas, o cirurgião pode utilizar placas ou parafusos conforme o padrão da lesão.

Em situações selecionadas, pode ser indicada a artrodese, também chamada fusão das articulações comprometidas. Nessa técnica, determinadas articulações são estabilizadas para que os ossos cicatrizem unidos.

A escolha entre as técnicas não depende apenas do nome da lesão. O padrão de fratura, condição da cartilagem, instabilidade e articulações afetadas precisam ser avaliados individualmente.

Como é a recuperação após a lesão?

A recuperação da fratura de Lisfranc geralmente é medida em meses. Mesmo após a cicatrização inicial, o pé precisa recuperar mobilidade, força, equilíbrio e tolerância às cargas.

No começo, o objetivo é proteger a região lesionada. Depois, conforme a liberação médica, ocorre a progressão do apoio e da reabilitação.

A fisioterapia pode trabalhar aspectos como:

  • Mobilidade do tornozelo e do pé;
  • Fortalecimento da panturrilha;
  • Musculatura que participa da sustentação do arco;
  • Equilíbrio e controle do apoio;
  • Recuperação do padrão da marcha;
  • Retorno progressivo às atividades.

A velocidade dessa progressão depende do tratamento realizado e da estabilidade conquistada. Aumentar a carga antes do momento adequado pode interferir na recuperação.

Quanto tempo demora para voltar a caminhar normalmente?

Não existe um prazo único. Uma lesão estável tratada sem cirurgia possui uma evolução diferente de uma fratura-luxação envolvendo várias articulações.

O paciente pode permanecer semanas sem apoiar e depois avançar gradualmente para carga parcial e completa. Caminhar confortavelmente, voltar ao trabalho físico ou retornar ao esporte pode exigir vários meses.

Dor, inchaço após esforço e rigidez também podem persistir durante parte da recuperação. Esses sintomas devem ser acompanhados para verificar se fazem parte da evolução esperada.

Quais complicações podem acontecer?

Mesmo com tratamento adequado, as lesões de Lisfranc podem causar consequências de longo prazo. Isso acontece porque o trauma pode afetar a cartilagem e modificar a distribuição das forças pelo médio-pé.

Entre as complicações possíveis estão:

  • Artrose pós-traumática;
  • Dor persistente no médio-pé;
  • Rigidez;
  • Instabilidade residual;
  • Alteração ou queda do arco plantar;
  • Dificuldade para retornar a atividades de impacto.

A artrose pós-traumática merece atenção porque pode aparecer mesmo após um tratamento tecnicamente adequado. O risco tende a variar conforme a intensidade do dano articular inicial.

Nos traumas de maior energia, também existem complicações agudas menos frequentes e potencialmente graves, como síndrome compartimental. Dor desproporcional e piora rápida após trauma importante exigem atendimento imediato.

Quando procurar atendimento médico com urgência?

Traumas no médio-pé acompanhados de incapacidade para apoiar merecem avaliação rápida. A necessidade aumenta quando existem sinais que sugerem fratura, luxação ou comprometimento importante dos tecidos.

Procure atendimento se houver:

  1. Dor forte após torção, queda ou impacto.
  2. Incapacidade ou grande dificuldade para caminhar.
  3. Hematoma na planta do pé.
  4. Inchaço importante ou crescente.
  5. Deformidade visível.
  6. Alteração de sensibilidade ou piora rápida.

Mesmo sem deformidade, a persistência da dor após uma suposta entorse precisa ser investigada. Lesões discretas podem comprometer a estabilidade sem produzirem uma alteração visual evidente.

Quando a origem do sintoma não está clara, buscar uma clínica ortopédica para esclarecer a origem da dor e definir o plano de cuidados pode evitar que uma lesão do médio-pé seja tratada apenas como uma torção simples.

Perguntas frequentes

A fratura de Lisfranc sempre aparece no raio X?

Não. Algumas lesões são discretas e podem não ficar evidentes em radiografias iniciais, principalmente quando há maior comprometimento ligamentar. Dependendo do caso, o médico pode solicitar radiografia com carga ou comparação com o outro pé. Tomografia computadorizada e ressonância magnética também podem complementar a investigação quando o exame físico mantém a suspeita ou é necessário estudar melhor ossos e ligamentos.

Toda lesão de Lisfranc precisa de cirurgia?

Não. Lesões estáveis, sem deslocamento e que mantêm o alinhamento adequado podem ser tratadas com imobilização e proteção do apoio. A cirurgia é considerada principalmente quando existe instabilidade, fratura deslocada ou luxação das articulações. Como pequenas diferenças no alinhamento podem influenciar a função do médio-pé, a decisão depende do exame físico, das imagens e das características específicas da lesão.

Quanto tempo leva para se recuperar?

A recuperação geralmente leva meses e varia conforme a gravidade da lesão e o tratamento escolhido. Algumas pessoas permanecem cerca de seis a oito semanas protegendo completamente o pé antes da progressão da carga. Depois começa uma fase gradual de recuperação da marcha, força e equilíbrio. Lesões complexas ou tratadas cirurgicamente podem exigir um período maior até o retorno confortável ao trabalho, exercícios e esportes.

Cada caso tem uma conduta própria, definida na consulta com especialista em pé e tornozelo em Goiânia.

É possível voltar ao esporte após uma lesão de Lisfranc?

Sim, muitos pacientes conseguem retornar às atividades esportivas, mas a liberação precisa ser progressiva. Antes de atividades com corrida, saltos ou mudanças de direção, é importante recuperar força, estabilidade, mobilidade e capacidade de apoiar sem dor relevante. O tempo necessário varia bastante. Lesões ligamentares instáveis, fraturas-luxações e comprometimento de várias articulações costumam demandar recuperação e acompanhamento mais prolongados.

Dr. Bruno Air

Ortopedista especialista em Pé e Tornozelo em Goiânia, CRM/GO 16354 e RQE 8226. Graduado pela Universidade Federal de Minas Gerais (2009-2011), com especialização em Cirurgia do Pé e Tornozelo pela Universidade Federal de Goiás e estágio no Massachussets General Hospital, Harvard University (2017).

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