Joelho

Doença de Blount: sintomas, causas e tratamento

Guia completo para reconhecer, diagnosticar e tratar a doença de Blount.

A doença de Blount é uma alteração do crescimento do osso da perna (tíbia) que deixa as pernas mais “arqueadas” para fora, principalmente perto do joelho, um padrão de joelho varo (genu varo) mais marcado e progressivo.

Ela também pode ser chamada de tíbia vara ou genu varo patológico.

Em muitos bebês e crianças pequenas, um pouco de arqueamento é normal e melhora com o tempo.

Vale observar que “pernas arqueadas” também é um termo comum para o quadro de perna de alicate, mas nem toda perna arqueada é doença de Blount.

Este texto é informativo e não substitui consulta com um médico.

O que é a doença de Blount

A tíbia tem uma região chamada placa de crescimento (uma área que “faz” o osso crescer). Na doença de Blount, a parte interna dessa placa, bem perto do joelho, cresce menos do que deveria.

Com isso, o osso vai “entortando” aos poucos, e o eixo da perna fica desviado (em varo). Pode acontecer em uma perna só (unilateral) ou nas duas (bilateral).

Blount infantil, juvenil e do adolescente

Os médicos ortopedistas especializados em problemas de joelho costumam dividir a doença de Blount por idade, porque o comportamento e o tratamento podem mudar.

  • Blount infantil: aparece geralmente antes dos 3 a 4 anos.
  • Blount juvenil: costuma surgir entre 4 e 10 anos.
  • Blount do adolescente: começa após os 10 a 11 anos.

A forma infantil tem mais chance de envolver as duas pernas. Já no adolescente, é comum afetar mais um lado, e o peso corporal costuma influenciar mais.

Síndrome de Blount é diferente de “pernas arqueadas normais”

Pernas arqueadas em crianças pequenas podem ser uma fase normal do crescimento. Em geral, joelhos tortos em crianças é mais visível quando o bebê começa a andar e melhora até por volta dos 2 a 3 anos.

Na doença de Blount, alguns sinais chamam atenção porque fogem do padrão esperado.

  • O arqueamento não melhora após os 2 a 3 anos.
  • A perna entorta mais com o tempo, em vez de melhorar.
  • Um lado fica mais arqueado do que o outro.
  • A criança manca, tropeça muito ou “joga” o joelho para fora ao andar.
  • Aparecem dor no joelho (mais em adolescentes) ou cansaço rápido.

Se você notar um desses pontos, o ideal é buscar um centro ortopédico com abordagem individualizada, mesmo que a criança pareça bem no dia a dia.

Principais sinais e sintomas

Os sintomas podem variar conforme a idade e a gravidade. Em muitos casos, o que mais chama atenção é a forma da perna e a marcha (jeito de andar).

  • Pernas arqueadas para fora (principalmente abaixo do joelho), padrão de joelho varo.
  • Assimetria entre as pernas.
  • Pés apontando para dentro ao caminhar.
  • Instabilidade, com o joelho “indo para o lado” durante a passada.
  • Mancar ou andar com a base mais aberta.
  • Dor no joelho após atividades (mais comum no adolescente).
  • Diferença de comprimento entre as pernas em casos avançados.

Por que acontece

A causa exata não é única. Em geral, a doença aparece quando a parte interna da placa de crescimento da tíbia sofre mais pressão e passa a crescer de forma desigual.

Alguns fatores podem aumentar o risco, principalmente por aumentar a carga no joelho:

  • Excesso de peso para a idade.
  • Início muito precoce da marcha (andar cedo).
  • Histórico familiar (pode ocorrer em algumas famílias).
  • Algumas características individuais do alinhamento das pernas.

Também existem outras condições que causam pernas arqueadas, como alterações metabólicas (por exemplo, raquitismo).

Por isso, o diagnóstico correto é essencial, preferencialmente com um médico com experiência em ortopedia pediátrica.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é feito por um ortopedista, que avalia a criança em pé, observa o alinhamento e a marcha, e procura sinais de assimetria e instabilidade.

A radiografia (raio-x) costuma ser o exame principal. Em geral, ela é feita com a criança em pé, porque isso mostra melhor como o peso “cai” sobre o joelho e a tíbia.

O que costuma aparecer no raio-x

No raio-x, o médico avalia o eixo da perna e procura alterações típicas na parte de cima da tíbia, do lado de dentro.

Ele também pode medir ângulos do osso para separar um arqueamento normal de um arqueamento patológico.

Em alguns casos, outros exames podem ser pedidos para planejamento cirúrgico ou para esclarecer dúvidas, mas isso não é regra para todos.

Tratamento

O objetivo do tratamento é alinhar a perna, melhorar a marcha e proteger o joelho a longo prazo. A escolha depende da idade, do grau do desvio e de quanto a criança ainda vai crescer.

Em geral, quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de corrigir com métodos menos invasivos.

Acompanhamento e observação

Em situações bem leves e no começo do quadro, o médico pode propor acompanhamento de perto, com reavaliações e novos exames ao longo do tempo.

Isso ajuda a confirmar se está melhorando, estabilizando ou piorando.

Órteses e fisioterapia

Em crianças pequenas, especialmente na forma infantil e em estágios iniciais, o uso de órteses (como aparelhos que alinham o joelho e a perna) pode ser indicado.

A ideia é reduzir a pressão na parte interna do joelho e ajudar o osso a crescer mais alinhado.

A fisioterapia pode entrar como apoio, principalmente para:

  • Fortalecer músculos da perna e do quadril;
  • Melhorar equilíbrio e marcha;
  • Orientar retorno gradual às atividades.

Modulação do crescimento

Quando ainda há bastante crescimento pela frente, uma opção é “guiar” o crescimento, fazendo a parte que cresce mais rápido desacelerar por um tempo.

Assim, a parte mais lenta consegue “alcançar”, e a perna vai alinhando aos poucos.

Esse tipo de procedimento costuma ser menos agressivo do que correções maiores, mas exige acompanhamento frequente.

Cirurgia de correção

Em casos mais avançados, ou quando os métodos conservadores não funcionam, pode ser indicada cirurgia. O tipo de cirurgia de joelho muda conforme a deformidade e a idade.

A cirurgia pode envolver cortes planejados no osso (osteotomia) para realinhar a tíbia.

Vale ressaltar que procedimentos como artroscopia do joelho não são o tratamento padrão da doença de Blount, mas podem entrar na conversa em situações específicas (por exemplo, se houver outra condição associada no joelho).

Recuperação e cuidados durante o tratamento

A recuperação varia bastante conforme a abordagem. No caso de órteses, o desafio costuma ser manter o uso correto e contínuo, com ajustes conforme a criança cresce.

Após a cirurgia, é comum haver um período com limitação de carga (apoio de peso), além de reabilitação para recuperar força e movimento.

Além disso, quando há excesso de peso, trabalhar hábitos saudáveis pode ajudar muito o tratamento, pois isso reduz a carga no joelho e pode diminuir a chance de piora ou retorno do desvio.

Evolução e prognóstico

Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, muitas crianças conseguem alinhar as pernas e ter uma vida ativa.

O resultado costuma ser melhor quando o tratamento começa cedo, antes do desvio ficar grande.

Quando a doença não é tratada, o desalinhamento pode aumentar com o tempo, que pode levar a sobrecarga do joelho, dor, desgaste articular mais cedo e alterações na marcha.

E, em cenários de desgaste importante no futuro, até necessidade de uma cirurgia maior, como prótese de joelho.

Quando procurar um especialista

Procure um ortopedista se você notar qualquer um destes pontos:

  • Arqueamento que não melhora após os 2 a 3 anos.
  • Arqueamento que piora com o tempo.
  • Uma perna bem mais arqueada do que a outra.
  • Dor no joelho, principalmente em crianças maiores e adolescentes.
  • Mancar, instabilidade ou quedas frequentes.
  • Suspeita de diferença de comprimento entre as pernas.

Dr. Ulbiramar Correia

Especialista em ortopedia de joelho, CRM/GO 11552, SBOT 12166 e RQE 7240. Membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ), Sociedade Brasileira de Artroscopia e Trauma Esportivo (SBRATE) e Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT).

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