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Síndrome de Bertolotti: causas, sintomas e tratamento

Entenda a síndrome de Bertolotti, como identificar, exames certos, tratamentos eficazes e quando operar. Guia direto para dor lombar crônica.

A síndrome de Bertolotti é uma causa subdiagnosticada de dor lombar crônica, especialmente em adultos jovens e ativos.

Ela acontece quando existe uma variação anatômica na transição lombossacra que altera a mecânica da coluna e pode gerar sobrecarga.

Quando identificada cedo, evita uma sequência de exames repetidos e tratamentos que não atacam o real gerador da dor.

Se você está com dor na lombar que persiste, vale entender quando ela merece investigação mais detalhada.

O que é a síndrome de Bertolotti

A síndrome de Bertolotti é a dor lombar associada a uma vértebra de transição lombossacra (LSTV).

Em geral, o processo transverso da última vértebra lombar (mais frequentemente L5) fica aumentado e encosta, articula ou se funde ao sacro ou ao osso do quadril (ílio).

O termo síndrome costuma ser usado quando há correlação entre sintomas, exame físico e imagem, sugerindo que a variação anatômica está mesmo por trás da lombalgia.

Vértebra de transição lombossacra: quando vira problema

A LSTV muda como as forças passam da coluna para a pelve.

Quando existe pseudoarticulação (um contato ósseo que funciona como uma articulação anômala), pode haver inflamação local e irritação de estruturas próximas.

Além disso, é comum aparecer sobrecarga nas articulações facetárias e no disco logo acima da transição, como o nível L4-L5, que pode degenerar mais cedo em algumas pessoas, cenário que pode coexistir com quadros de artrose na coluna.

Por que essa variação pode doer

A dor nem sempre vem do mesmo lugar em todos os pacientes.

Em alguns casos, o principal gerador é a pseudoarticulação; em outros, são as facetas, a articulação sacroilíaca, a musculatura (como quadrado lombar e iliopsoas) ou a degeneração do disco acima.

Quando há assimetria, por exemplo, a alteração só de um lado, o corpo compensa com ajustes de postura e movimento.

Isso pode favorecer irritação mecânica e sensação de travamento na lombar, com piora em movimentos repetidos ou sustentados.

Em situações específicas, também pode existir compressão de raízes nervosas por alterações degenerativas próximas, o que muda o padrão da dor e pode trazer sintomas irradiados e, em crises, pode se confundir com quadro de hérnia de disco.

Quem tem mais risco

A síndrome de Bertolotti pode aparecer em qualquer idade, mas é frequentemente considerada em pessoas com dor lombar mecânica que começa na vida adulta jovem.

O histórico costuma envolver piora com carga, repetição e posições mantidas.

Atletas, trabalhadores que levantam peso, pessoas com escoliose leve, hipermobilidade ou controle motor deficiente podem perceber sintomas mais cedo.

Ainda assim, a presença da vértebra de transição, por si só, não significa doença.

Sinais e sintomas mais comuns

O padrão mais típico é lombalgia localizada na região lombossacra, com possíveis episódios de rigidez.

Algumas pessoas descrevem dor que irradia para o glúteo, quadril ou virilha, sem seguir exatamente o trajeto clássico de uma hérnia de disco.

Os sintomas costumam piorar com extensão e rotação do tronco, além de longos períodos em pé ou sentado.

Pode coexistir desconforto na articulação sacroilíaca, principalmente quando há assimetria pélvica.

  • Dor lombar crônica na transição lombo-pélvica.
  • Rigidez e limitação para alguns movimentos.
  • Piora com extensão, rotação e carga repetida.
  • Irradiação atípica para glúteo ou quadril, em alguns casos.

Quando procurar avaliação sem esperar

Dor lombar é comum e, na maior parte das vezes, não é urgente.

Ainda assim, vale agendar uma consulta em um centro ortopédico especializado se houver perda de força progressiva, dormência importante, febre, trauma recente ou alterações urinárias e intestinais.

Esses sinais não confirmam Bertolotti, mas pedem investigação para outras causas que exigem cuidado imediato, por exemplo, sinais compatíveis com síndrome da cauda equina.

Diagnóstico e exames que realmente ajudam

O diagnóstico é uma soma de clínica e imagem. A conversa detalhada sobre o padrão da dor e o exame físico ajudam a localizar a região mais sensível e a levantar hipóteses como facetas, sacroilíaca e disco.

Na imagem, a radiografia lombossacra costuma ser o ponto de partida porque mostra o aumento do processo transverso e o contato com sacro ou ílio.

Tomografia detalha a anatomia óssea e a pseudoarticulação, enquanto a ressonância avalia discos, facetas e sinais de inflamação.

Um recurso importante, em casos selecionados, é o bloqueio diagnóstico com anestésico local na pseudoarticulação ou em estruturas suspeitas.

Quando ocorre alívio expressivo logo após o procedimento, isso reforça a origem da dor.

  • Raio-x lombossacro: identifica a vértebra de transição.
  • Tomografia: define bem o osso e a pseudoarticulação.
  • Ressonância: avalia disco, facetas e sinais associados.
  • Bloqueio diagnóstico: ajuda a confirmar o gerador da dor.

Por que o diagnóstico costuma atrasar

O quadro pode parecer dor lombar comum, e muitos pacientes passam por tentativas de tratamento genéricas.

Além disso, o achado da LSTV pode aparecer na imagem e ser interpretado como “variação sem importância”, mesmo quando existe correlação com a dor.

Por isso, o diagnóstico costuma ser mais sólido quando se liga o padrão clínico ao achado anatômico, e não apenas ao laudo do exame.

Classificação prática para orientar a conduta

A classificação mais usada por ortopedistas especialistas em problemas de coluna para as vértebras de transição é a de Castellvi, baseada no que aparece na radiografia.

Ela ajuda a padronizar a descrição e a orientar a conversa sobre risco de pseudoarticulação e sobrecarga mecânica.

De forma simplificada, os tipos vão desde um processo transverso aumentado (Tipo I), até pseudoarticulação (Tipo II), fusão completa (Tipo III) e combinações (Tipo IV).

Na prática clínica, os casos com pseudoarticulação costumam ter maior chance de dor mecânica localizada, mas cada paciente precisa ser avaliado individualmente.

Tratamento passo a passo

O tratamento é, em geral, conservador e progressivo. O objetivo é reduzir o componente inflamatório, melhorar a mecânica lombo-pélvica e recuperar tolerância à carga, sem depender apenas de repouso ou de medicação.

Na maioria das pessoas, um plano bem estruturado de reabilitação, com ajustes de rotina e progressão gradual, já traz controle da dor e retorno funcional.

Procedimentos intervencionistas podem ser úteis quando a dor impede a evolução na fisioterapia.

  • Educação e ajustes de rotina (pausas, ergonomia e carga).
  • Analgésicos e anti-inflamatórios por curto período, com orientação clínica.
  • Fisioterapia com estabilização lombo-pélvica e controle motor.
  • Infiltrações guiadas quando a dor limita a reabilitação.
  • Radiofrequência em casos selecionados, após teste diagnóstico favorável.

Na reabilitação, o ponto não é evitar tudo, e sim progredir com critério. Se houver suspeita de disco associado, vale também entender o que evitar, por exemplo, os 6 piores exercícios para quem tem hérnia de disco.

Tratamento intervencionista: infiltração e radiofrequência

A infiltração guiada pode ter dois papéis: ajudar no diagnóstico (quando há alívio logo após o bloqueio) e diminuir a dor por um período, facilitando o ganho funcional com a reabilitação.

A radiofrequência pode ser considerada quando há boa resposta ao bloqueio e o quadro permanece limitante.

A indicação é individualizada e depende do provável gerador de dor (pseudoarticulação, facetas ou sacroilíaca), além do histórico de tratamentos prévios.

Exercícios úteis na reabilitação

A reabilitação costuma focar mais em princípios do que em um exercício mágico.

O ponto central é melhorar a estabilidade, mobilidade de quadris e tolerância à carga, respeitando o nível de dor e a fase do tratamento.

Com orientação de fisioterapeuta, estratégias comuns incluem fortalecimento progressivo e treino de controle motor. Em geral, a melhora mais consistente vem da regularidade e da progressão bem dosada.

  • Fortalecimento de core, glúteo médio e rotadores do quadril.
  • Mobilidade de quadris e coluna torácica, conforme necessidade.
  • Alongamentos direcionados (flexores do quadril e isquiotibiais).
  • Progressão gradual de carga e retorno ao esporte com critérios claros.

Cirurgia: quando considerar

A cirurgia de coluna é exceção e costuma ser reservada para dor persistente, com forte correlação entre sintomas e imagem, após falha documentada de tratamento conservador e de medidas intervencionistas.

As opções variam conforme o caso e podem incluir ressecção do segmento sintomático (quando a pseudoarticulação parece ser o principal gerador) ou fusão dirigida em cenários com instabilidade e degeneração mais relevante.

A decisão precisa considerar riscos, expectativas e o que, de fato, está causando a dor naquele paciente.

Prognóstico e vida ativa

Boa parte dos pacientes consegue controle adequado com reabilitação estruturada e ajustes de carga no dia a dia.

Quando há identificação do gerador de dor e adesão a um plano progressivo, o retorno ao trabalho e ao esporte costuma ser possível.

Se a dor persiste apesar de cuidados bem conduzidos, vale revisar o diagnóstico com ortopedista especialista em coluna, investigar geradores associados (disco, facetas, sacroilíaca) e discutir opções intervencionistas ou cirúrgicas.

FAQs

A síndrome de Bertolotti tem cura?

É uma variação anatômica congênita e, por isso, não “desaparece” com tratamento. Ainda assim, a dor pode ser controlada na maioria dos casos com reabilitação bem orientada e ajustes de carga no dia a dia. Quando necessário, infiltrações guiadas e, em situações selecionadas, radiofrequência podem reduzir a dor e permitir retorno funcional, sem que isso signifique cirurgia obrigatória.

Qual é o melhor exame para confirmar?

Geralmente, a radiografia lombossacra já mostra a vértebra de transição e sugere a alteração anatômica. Tomografia ajuda a detalhar o osso e a pseudoarticulação, enquanto a ressonância avalia discos, facetas e sinais associados, especialmente quando há dor irradiada. Em casos selecionados, um bloqueio diagnóstico guiado, com anestésico local, reforça a confirmação ao indicar alívio significativo logo após o procedimento.

A síndrome de Bertolotti pode causar invalidez?

Depende da intensidade da dor, do impacto funcional e da resposta ao tratamento. Muitos pacientes controlam os sintomas com fisioterapia e manejo de carga, mantendo vida ativa. Em quadros persistentes, pode haver limitação objetiva para algumas tarefas, exigindo adaptação de trabalho e reavaliação clínica. Casos refratários precisam de investigação cuidadosa do gerador de dor e, às vezes, de medidas intervencionistas para recuperar função e reduzir incapacidade.

Qual o CID da síndrome de Bertolotti?

Nem sempre existe um CID único usado de forma universal, porque o quadro envolve uma variação congênita e a dor associada. Na prática, muitos serviços utilizam códigos do grupo Q76 (malformações congênitas da coluna) conforme a documentação clínica e a descrição anatômica do caso. O mais importante é que o registro reflita o achado de vértebra de transição lombossacra e a correlação clínica com a lombalgia.

Dr. Aurélio Felipe Arantes

Especialista em ortopedia de coluna em Goiânia. Membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Coluna (SBC). Preceptor do Departamento de Ortopedia e Traumatologia do HC-UFG e membro da diretoria da SBOT Goiás.

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